O Sucessor

Um bate-papo sobre negócios, sucessão e planejamento financeiro

Carta ao leitor

A sucessão nunca foi apenas sobre patrimônio.

Ela é sobre pessoas. Sobre emoções que ninguém quer discutir. Sobre decisões que são adiadas até que se tornem urgentes.

Nesta edição, você vai perceber que continuidade não depende apenas de estrutura, depende de preparo humano.

Porque no final, não são empresas que falham.
São pessoas despreparadas para assumir o que foi construído.

Cláudio Siqueira Junior

Resumo da ópera

EDIÇÃO DE 30 de Março

Natalia Cristofoletti

Sucessão, Carinho e Legado…

Legado não se transfere, se constrói entre gerações.

Andressa Rodrigues

Ansiedade: O mal do século e o desafio de viver com mais leveza

Cuidar da mente é o primeiro passo para viver mais e melhor.

Dr. Ramon Oliveira

O processo de envelhecimento não é definido apenas pelo tempo que se vive. Mas sim, pela forma como se envelhece

Saúde não é sorte, é construção de longo prazo.

Ricardo Monteiro

Governança e compliance na era da inovação: Da autoridade à influência

Influência substitui autoridade na nova governança.

Natalia Cristofoletti

Sucessão, Carinho e Legado…

Sucessão vai além de questões jurídicas ou planejamentos sucessórios. A sucessão envolve dor, envolve perdas, envolve sentimentos que ninguém quer falar.

E, dentro de casa não é diferente. Uma mãe nunca quer abandonar um filho, muitas vezes insiste guiá-lo e segura sua mão até o final, como se ainda dependente fosse. E o mesmo ocorre com um fundador de uma empresa, com aquele negócio que fundou, inovou, superou as adversidades e deu certo!

Para empresas atuarem com perpetuidade, desenvolver e manter-se atualizada com as melhores práticas e inovação, é necessário permitir e dar espaço às pessoas envolvidas que seguiram a trilha de conhecimento do negócio e tem interesse em contribuir, seja do núcleo familiar ou de mercado. Oxigenar é preciso!

Sou Natalia Cristofoletti, segunda geração da Casa do Construtor e vim contar um pouco da minha trajetória até aqui, e como esse assunto me encanta e se tornou meu propósito de vida.

Todos nós, durante Pandemia, passamos a nos dedicar e nos permitir a fazer coisas novas, e comigo não foi diferente, interessada e ansiosa por conhecimento, passei a estudar as apostilas do IBGC sobre Governança Corporativa do meu pai e aquele material verdadeiramente me transformou.

Como semente de tudo aquilo que estudei, instituímos na franqueadora, o comitê de ESG e eu entrei com o olhar da Governança dentro da estrutura, para trazer mais clareza, uma visão inclusiva da segunda geração no negócio e estrutura.

Em 2021 entendi que só a convivência na empresa não iria gerar a afinidade necessária à perpetuação do negócio, precisávamos de proximidade. Somos duas famílias, sem relação de sangue que se uniram há 30 anos para montar um negócio, meu pai Altino Cristofoletti e o amigo, sócio, Expedito Arena. Eles por todo este tempo se escolhiam diariamente, com uma cumplicidade e o sentimento de irmandade, que se irmãos de sangue, talvez não teriam.

E como a segunda geração iria se escolher? Eu dizia então, naquela época, que os dois se escolheram e a segunda geração se aceitava. Até porque, não tínhamos proximidade e intimidade, não conhecíamos a vida uns dos outros, nosso contato se limitava às reuniões de conselhos.

No início de 2022, fiz uma proposta para a “filha da outra parte”, Mariana Arena, hoje minha companheira e minha escolha como dupla para viver essa jornada da empresa familiar, de realizar um encontro de família, onde as duas tivessem oportunidade passar um final de semana, com a presença dos fundadores, sendo proibido falar sobre negócios, a proposta era apenas diversão e integração. Ela logo topou.

Construímos um projeto e apresentamos aos sócios fundadores, e no terceiro final de semana de agosto daquele ano, realizamos nosso primeiro encontro. Foi emocionante, as crianças se aproximaram, os sucessores da segunda geração se aproximaram, noite com vinho e pizza, café da manhã com alma, diversão e esporte nos uniu.

Em 2023 participei de uma especialização no IBGC em parceria com a FBN, “Relações Humanas para família Empresária”, não era conselho de família, não era juridiquês, era a proximidade, era relação de confiança, comunicação não violenta, entender a outra parte. Aquilo tudo fez muito sentido, e isso mudou a forma como eu pensava e queria continuar conduzindo esse processo de legado para a segunda geração da Casa do Construtor.

Em nosso segundo encontro de família, levei então, um trabalho para fazermos, nada ligado a empresa, nenhum número ou indicador de performance, sem pauta. Apenas a união, conhecer e fortalecer nossos valores, quem honramos, a nossa causa e o nosso porquê. Desde então, em todo encontro levo alguém diferente para tratar de assuntos intrínsecos, de crescimento humano, entendimento de uma empresa multi-familiar, perpetuando nosso legado.

Naturalmente benchmarks com famílias empresárias começaram a fazer sentido e dois encontros ao ano fazem parte da nossa agenda oficial e proporcionam além de uma troca muito rica, fortalecimento dos laços fora do ambiente da empresa.

Geralmente, no primeiro semestre trocamos experiências com outras famílias empresárias, boas práticas, aprendizados que nos fazem refletir e crescer. Já no segundo semestre promovemos e aprimoramos a nossa conexão como grupo de sucessores, já temos até nome, o “Encontro da nossa Família” hoje nos chamamos de AmarElos.

É motivo de orgulho e satisfação ter contribuído, após 6 anos de estudo e desenvolvimento pessoal, compartilhado sobre Governança Corporativa, e hoje já colhemos diversos frutos, dentre os quais posso destacar a instituição do conselho de família da Casa do Construtor, participação em projetos de liderança e cursos tanto online quanto presencial de formação de conselheiros, trocas de experiências com muitas famílias empresárias em situação mais organizada e outras que buscam se estruturar e precisam de orientação.

Assim, de maneira despretensiosa, a curiosidade nas apostilas do IBGC sobre Governança Corporativa, do meu pai, naturalmente se tornou vocação em fortalecer esses laços intrínsecos de gerações e legado que uma empresa familiar precisa olhar e cuidar. Nunca serão apenas instrumentos jurídicos, são conversas difíceis, o exercício de empatia e até humildade ao entender que, em determinado momento, a solução pode não estar na família e sim no mercado.

A passagem do bastão não é tarefa simples, por isso, tanto nos negócios quanto no esporte deve ser treinada à exaustão, queira você ou não, a alta performance ou resultados de qualidade sempre decorrem de esforço, dedicação, entrega e abdicação. Sim, é preciso saber abrir mão e pensar no bem comum!

A segunda geração deve se escolher também, a irmandade não fica apenas entre os dois fundadores, mas na escolha de perpetuar um legado e honrar uma história.

Andressa Rodrigues

Ansiedade: o mal do século e o desafio de viver com mais leveza

Por Andressa Rodrigues – Psicóloga e Psicanalista

Vivemos em um tempo em que tudo precisa ser imediato: resultados, respostas, reconhecimento. A tecnologia encurtou distâncias, mas também nos afastou de algo essencial — a pausa.
A ansiedade, considerada o mal do século, surge justamente desse ritmo acelerado e da dificuldade de estar presente no agora.

A ansiedade, em doses equilibradas, é uma emoção natural que nos prepara para agir diante de situações novas ou desafiadoras. O problema começa quando ela passa a dominar nossos pensamentos, o corpo e o cotidiano, tornando-se um estado quase permanente.
Sintomas como insônia, taquicardia, tensão muscular, medo constante e dificuldade de concentração se tornam sinais de alerta de que algo precisa mudar.

 Viver melhor para viver mais

Cuidar da mente é também cuidar do corpo — e isso impacta diretamente a nossa longevidade.
Pesquisas em neurociência e psicologia mostram que altos níveis de estresse e ansiedade crônica aceleram o envelhecimento celular, aumentam a inflamação no organismo e comprometem o sistema imunológico. Em contrapartida, pessoas que mantêm equilíbrio emocional, propósito e boas relações sociais tendem a viver mais e melhor.

A longevidade não está apenas ligada à quantidade de anos, mas à qualidade emocional com que esses anos são vividos.
Um coração tranquilo, um corpo que respira com calma e uma mente que encontra sentido no cotidiano são fatores tão importantes quanto a alimentação ou a prática de exercícios físicos.

 Pequenos gestos que prolongam a vida

  • Reserve momentos de pausa. O descanso é parte essencial da produtividade e da saúde mental.

  • Pratique o silêncio. Ele nos reconecta com o que sentimos e pensamos.

  • Cultive vínculos saudáveis. Relações de afeto e pertencimento fortalecem o sistema imunológico e emocional.

  • Faça escolhas conscientes. Comer bem, dormir com qualidade e buscar momentos de prazer ajudam a regular o corpo e a mente.

  • Busque autoconhecimento. A psicoterapia e a psicanálise são caminhos profundos de compreensão de si mesmo, permitindo viver com mais presença e serenidade.

 Reflexão final

A ansiedade não precisa ser o vilão da vida moderna.
Ela pode ser um sinal de que é hora de ajustar o ritmo, rever prioridades e olhar com mais carinho para si mesmo.
Cuidar da saúde mental é um investimento em longevidade, vitalidade e sentido de vida.

Talvez o verdadeiro antídoto para o mal do século não esteja em eliminar a ansiedade, mas em aprender a escutar o que ela quer nos dizer.
Quando desaceleramos e nos conectamos com o que realmente importa, encontramos o equilíbrio entre viver mais — e viver melhor.

 Sobre a autora

Andressa Rodrigues é psicóloga e psicanalista, com atuação voltada à promoção da saúde mental, qualidade de vida e desenvolvimento humano.
Atende individualmente e também em projetos sociais voltados ao cuidado emocional, acreditando que o autoconhecimento e o acolhimento são caminhos essenciais para uma vida mais leve e longa.

 

Dr. Ramon Oliveira

O processo de envelhecimento não é definido apenas pelo tempo que se vive. Mas sim, pela forma como se envelhece

Durante muito tempo, o envelhecimento foi tratado como um processo inevitável, passivo, quase como um destino biológico sobre o qual não temos controle. Cansaço, perda de força, redução da funcionalidade e inúmeras doenças — tudo isso foi, por décadas, aceito como parte natural da vida.

Mas a ciência avançou, e muito!

E hoje sabemos que envelhecer não é apenas uma questão de tempo. É, sobretudo, uma questão de processo, ou seja, como você escolhe o seu ambiente, hábitos e comportamento.

Nesse sentido, uma nova perspectiva chamada ciência da longevidade vem trazendo uma mudança profunda de perspectiva, ou seja, o envelhecimento deixou de ser visto apenas como o acúmulo de anos e passou a ser compreendido como o resultado de mecanismos biológicos específicos, que podem ser acelerados ou desacelerados ao longo da vida.

Isso muda tudo. Porque, se antes a pergunta era “quanto tempo vamos viver”, hoje a pergunta mais relevante é: Como vamos viver esse tempo?

Assim como nas empresas, onde crescimento sem estrutura pode comprometer o futuro, o corpo humano também segue uma lógica semelhante. Sem cuidado, sem estratégia e sem consistência, o processo de envelhecimento tende a se tornar mais rápido, mais desorganizado e mais vulnerável. No nível mais profundo, o envelhecimento precoce ocorre frequentemente em vários tecidos e órgãos, resultando em doenças crônicas especificas de cada tecido.

Com o tempo, nosso organismo passa por uma série de transformações: redução da eficiência energética, acúmulo de danos no DNA, alterações metabólicas e um aumento progressivo da inflamação crônica de baixo grau.

Esses processos são silenciosos. Não aparecem de forma imediata.

Mas, ao longo dos anos, constroem o cenário que leva às principais doenças da atualidade, como doenças cardiovasculares, diabetes, declínio cognitivo, câncer. Ou seja, o envelhecimento não é apenas um evento biológico natural. Ele é o principal fator de risco para as doenças que mais impactam a sociedade moderna.

Muitas pessoas passam anos priorizando resultados imediatos — produtividade, trabalho, compromissos — enquanto negligenciam os pilares que sustentam a saúde no longo prazo. Alimentação inadequada, sedentarismo, privação de sono e níveis elevados de estresse tornam-se parte da rotina.

As decisões são sempre adiadas. O cuidado com a saúde é frequentemente postergado para “quando houver tempo”.

Mas, assim como no mundo corporativo, esse tempo nem sempre chega. A ciência já demonstrou que intervenções simples, quando aplicadas de forma consistente, têm impacto direto nos mecanismos do envelhecimento.

O exercício físico melhora a função mitocondrial e a capacidade metabólica. Uma alimentação equilibrada contribui para o controle da inflamação e da saúde celular. O sono adequado regula processos fundamentais de reparo e equilíbrio hormonal. E o controle do estresse protege sistemas essenciais, incluindo o sistema nervoso e o próprio DNA.

Não se trata de soluções complexas, mas sim de consistência e decisões. E, principalmente, como em tudo na vida, ter uma visão de longo prazo também para a saúde é inegociável.

Longevidade não se constroi em momentos pontuais, mas sim de escolhas diárias. Assim como empresas que se perpetuam ao longo de gerações, são aquelas que investem em estrutura, processos e governança, indivíduos que envelhecem com qualidade são aqueles que compreendem que saúde não é um evento — é um investimento a longo prazo.

Talvez o maior erro seja acreditar que envelhecer bem é algo que pode ser deixado para depois. Mas a verdade é que o processo já começou.

Independentemente da idade, a pergunta que fica, portanto, não é se você vai envelhecer. A pergunta é:

“Você está construindo um corpo capaz de sustentar a vida que deseja ter no futuro?”

Porque, no final, o maior ativo que alguém pode ter não é apenas o tempo, mas sim a capacidade de viver esse tempo com autonomia, energia e clareza.

E isso não acontece por acaso. É resultado de escolhas.

Prof. Dr. Ramon Oliveira

Pesquisador, Sensei de Karatê

Ricardo Monteiro

Governança e Compliance na Era da Inovação: Da Autoridade à Influência

No modelo de gestão do século XX, o valor de um conselheiro ou líder de governança era medido, muitas vezes, pela sua capacidade de controle e pela autoridade hierárquica acumulada em décadas de cadeiras executivas. No entanto, o que estamos testemunhando agora é uma mudança de paradigma: a transição da "velha economia" — pautada pela escassez e pelo comando — para uma nova realidade baseada na abundância e na influência estratégica.

Para o sucessor, surge uma provocação essencial: toda empresa precisa de uma estrutura de governança e compliance que faça as perguntas certas, e não apenas de quem valide respostas prontas do passado.

O Imperativo do "Desaprender" na Governança e Compliance

O maior inimigo de um conselho hoje não é a falta de conhecimento, mas o excesso de certezas obsoletas.

Para manter a conformidade em um mundo volátil, é preciso:

  • Desaprender a necessidade de posse para atuar na disponibilização do acesso;

  • Desaprender a competição predatória para criar mecanismos de colaboração;

  • Exercer a Ambidestria: entender o passado e os fundamentos da gestão (retrovisor) ao mesmo tempo em que se antecipa o impacto de tendências e tecnologias exponenciais (horizonte).

Diversidade Cognitiva e a Nova Geração de Conselheiros

A diversidade em um conselho vai muito além de gênero ou etnia; trata-se de diversidade cognitiva. Para que os processos de governança e compliance não fiquem defasados, os conselheiros precisam ampliar seu repertório para além das finanças e do direito.

Conhecimentos em ESG, transformação digital e gestão de talentos tornam-se pilares para uma visão holística.

Profissionais com formação multifacetada exemplificam a nova geração de "Generalistas com Visão Inovadora". Eles não buscam apenas o lucro imediato, mas a longevidade da organização frente às crises e às mudanças de curto, médio e longo prazo.

Do Comando à Influência Estratégica

A autoridade formal está sendo substituída pela influência. O conselheiro de impacto positivo na governança e complianceé aquele que:

  • Abraça a Abundância: troca a mentalidade de restrição por uma visão de oportunidades exponenciais.

  • Provoca a Gestão: através de perguntas que desafiam o status quo e ajudam a empresa a navegar em "novos oceanos" de negócios.

  • Foca em Resultados Sistêmicos: integra teoria e prática para promover o desenvolvimento de talentos e resultados sustentáveis. 

Refletir e Praticar:

1. O Dilema entre Eficiência Imediata e Inovação Perene

  • Cenário: O conselho propõe um corte rigoroso de custos para proteger a margem do trimestre, mas a medida sufoca investimentos em tecnologias exponenciais.

  • Prática de Governança: Em vez de apenas validar os números com autoridade hierárquica, exerça sua influência estratégica.

  • A Pergunta de Impacto: "Como essa decisão impactará nossa capacidade de operar além dos próximos 10 anos ou da próxima grande crise?". O objetivo é garantir que a governança e o compliance financeiro não comprometa a longevidade da organização.

2. A Transição da Posse para a Colaboração Estratégica

  • Cenário: A empresa familiar resiste a abrir processos para parceiros externos por medo de perda de controle ou quebra de sigilo.

  • Prática de Governança: Questione como a empresa pode migrar da lógica da escassez e da posse para abraçar a abundância através do acesso e da colaboração.

  • A Pergunta de Impacto: "Estamos protegendo um castelo que está se tornando irrelevante no ecossistema atual?". A governança e o compliance moderno deve viabilizar parcerias seguras, e não apenas erguer muros. 

3. Integração de Tendências Emergentes no Compliance Atual

  • Cenário: O conselho dedica-se exclusivamente à governança tradicional (atas e conformidade legal), ignorando o impacto de novas IAs ou critérios ESG no modelo de negócio.

  • Prática de Governança: Utilize a diversidade cognitiva para conectar o futuro ao presente. Provoque o conselho a ser ambidestro: olhando o fundamento, mas antecipando o horizonte.

  • A Pergunta de Impacto: "Quais tendências emergentes que conhecemos hoje invalidam nosso modelo de governança e compliance atual se não agirmos agora?"

 

Obrigado por nos acompanhar até aqui!

Até a próxima edição.

“A vitória está reservada para aqueles que estão dispostos a pagar o preço.” Sun Tzu

Até Junho!

Foi um prazer estar com você!

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